quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Relato da prática docente


RELATO DA PRÁTICA DOCENTE
Memórias literárias
Construindo e reconstruindo saberes
   Sou professora, e nessa Olimpíada de Língua Portuguesa, consegui com que meu aluno fizesse uma viagem no mundo da imaginação de outras pessoas, conhecendo suas histórias, e assim, fazendo uma ponte entre o passado e o presente. Isso só pode acontecer através do gênero textual, “entrevista”. Antes mesmo de realiza-la, os educandos já tinham escolhido a quem iam entrevistar.
   Na ocasião, vamos relatar um pouco como foi desenvolvida a sequência didática sobre o gênero Memórias Literárias em suas oficinas, nas quais vou me dedicar em falar acerca das aulas práticas na construção dos conhecimentos. Após apresentar o que íamos trabalhar no decorrer das oficinas, as turmas do 6º e 7º anos ficaram surpresos porque nunca tinham ouvido falar do gênero “Memórias Literárias”. Alguns deles, logo no início pensaram que não iam conseguir, pois achavam difícil fazer a transição do gênero relatos de memórias para Memórias Literárias. Mas com o desenvolvimento das oficinas fomos trabalhando essas dificuldades. Então, para que a turma compreendesse melhor, pesquisei dois outros gêneros que foram a biografia e a autobiografia com intuito de mostrar as diferenças entre ambos. Entreguei-lhes um texto de cada gênero e fomos analisar em que pessoa estava escrito cada um. A partir daí eles já compreenderam o que era primeira e terceira pessoa, ou seja, o que os diferenciavam.
   Na oficina seguinte, introduzi a coletânea de textos da Olimpíadas de Língua Portuguesa com o intuito que os alunos percebessem suas semelhanças e diferenças com o texto anterior estudado. Nos textos da coletânea foi observado também as marcas do passado, onde introduzi o modo subjuntivo e os tempos verbais presentes no gênero Memórias Literárias. Foi então que começamos a pesquisa dos verbos no pretérito perfeito e imperfeito. Logo em seguida, identificamos junto aos alunos no contexto em suas análises orais e escritas.
                                              Alunos lendo as coletâneas das Olimpíadas de Língua Portuguesa


   
   Após a conclusão das atividades supracitadas, fomos mais além das oficinas e passamos o filme “Narradores de Javé” para as duas turmas. O objetivo desse vídeo foi mostrar para os estudantes a importância do registro como documento. Logo após o filme, fizemos uma roda de conversa e o que eles aprenderam em relação a história assistida. Teve muitos comentários interessantes.
   Enriquecendo ainda mais nossas oficinas, comecei falando de memórias e dos tipos de memórias, as de longo prazo e de curto prazo. Perguntei oralmente, o que eles lembravam quando criança e logo começaram a pensar e elucidar o que lembravam. Também comparei a memória de curto prazo com um conteúdo que se aprende apenas para fazer avaliações e depois que você termina, se passar um dia e alguém fizer qualquer pergunta a respeito do assunto estudado ninguém lembra a resposta. Já a memória de longo prazo, guarda tudo o que acha que é importante, pois sabe que depois preciso lembrar. As discussões foram muito instigantes e influenciaram para novas descobertas.
   Assim, pedi para que os alunos duas turmas envolvidas no gênero “Memórias Literárias” escrevessem sobre suas recordações. No 6º ano, a temática foi “Um dia que marcou a minha vida”. Eles escolheram escrever uma memória boa e outra ruim. Veja um dos textos abaixo:
       


   Só uma observação: As produções deles são registradas de grafite para juntos fazermos as intervenções, ou seja, as revisões sobre os conhecimentos linguísticos. Faço-as individualmente para depois passarem a limpo com caneta.
    Já a temática do sétimo ano para a produção textual foi: Memórias: A minha infância


                                                                Alunos produzindo o texto Memórias: A minha infância














Mostra de um dos textos produzidos 


   Logo após a construção dos textos, onde escreveram sobre os momentos de suas vidas, mergulhando nas memórias de longo prazo, percebi o celeiro de   histórias maravilhosas que saíram de cada um. Depois aconteceu a hora das intervenções, propondo melhorias para o seu texto, trocando algumas palavras repetidas por sinônimos, e assim por diante. Esses momentos não foram tão fáceis, pois teve alunos que resistiam em fazer essas correções, mas não desisti e fui sempre tentando, até motivar as turmas a fazer a etapa da construção do saber.


                                                                                  Representação das fotografias deles e dos amigos registrando imagens com cenas de memórias
   
   Depois de vários estudos das oficinas e atividades desenvolvidas começamos a organização para a elaboração do gênero textual, entrevista. Estudamos como se organizam as questões e que perguntas inteligentes estimulariam os entrevistadores a fazê-las. As primeiras entrevistas, foram realizadas com familiares dos alunos, os mais idosos, tendo como tema: “Minha infância”.   
  As elaboração das perguntas iam sendo construídas no grupão com a participação de todos. De repente, nasceu o gênero textual organizado por eles que era a entrevista. Algumas indagações que o grupo elaborava nem todas eram aceitas por eles, refutando as menos interessantes.

   Na aula seguinte fizemos a retextualização, analisando juntamente com os educandos os processos realizados de transformação da entrevista em uma memória literária, obedecendo suas características, principalmente sua linguagem com plurissignificação e o uso da conotação, deixando o texto mais florido para quem vai entrar no mundo da imaginação que é a leitura desses belíssimos textos. Além disso, trabalhamos o uso adequado dos sinais de pontuação no texto, observando sua entonação na hora da leitura.




Primeiro texto de Memórias Literárias produzido por eles.

   Agora sim! Os discentes já estavam “prontos” para fazer a segunda entrevista e o segundo texto, dos quais um seria escolhido para concorrer nas Olimpíadas de Língua Portuguesa na escola. Na instituição escolar foram realizadas duas entrevistas. Os alunos do 6º ano entrevistaram Dona Fátima, avó de um aluno da turma, moradora das adjacências da escola e o sétimo optou em entrevistar Hélio Tomaz, nascido na Fazenda Totoró.  Mais uma vez, no grupão foram elaboradas questões baseadas nas primeiras para serem realizadas nas entrevistas. O tema escolhido foi a infância dos entrevistados.
Entrevistas realizadas na escola com pessoas da comunidade


       Entrevistas com Hélio Tomaz                                                                           Entrevista com D. Fátima







   Agora chegou a vez de vencer mais um desafio que é a hora de transformar os registros da entrevista em um texto de Memória Literária. Escrevendo esse gênero na primeira pessoa, organizando as vozes do entrevistado como se fossem eles falando. Lembrando que ao escrever, os verbos devem estar no pretérito perfeito e imperfeito, não esquecendo que o autor dessas memórias quando conta suas histórias faz um elo com o presente.

Hora da intervenção da professora com o aluno
Texto pronto
         









                                              
Texto das memórias literárias classificado na escola, município e estado




   Depois da retextualização, vem a hora da intervenção. Nesse momento, a correção é feita individualmente, é nessa ocasião que as dúvidas são tiradas em relação a paragrafação, pontuação, sequência lógica de pensamentos, se o texto realmente está escrito em primeira pessoa e se o uso dos verbos estão sendo usados nos tempos predominantes do gênero Memórias Literárias, ou seja, se tudo tem coerência e coesão. É um trabalho um pouco árduo, fazer toda essa transição, mas no final quando se vê o resultado satisfatório em relação a aprendizagem é que percebemos que valeu apena todos os esforços percorrido durante as Olimpíada de Língua Portuguesa.
   No decorrer das oficinas, aconteceram muitos aprendizados, deu para observar essa evolução durante as leituras e produções textuais na hora das intervenções quando a gente percebia um aluno ajudando o outro na reescrita da sua produção. Dava para perceber o prazer que os estudantes sentiam ao realizar as oficinas dessa sequência didática. E como diz Vygotsky (1980), “o conhecimento pronto estanca o saber e a dúvida provoca a inteligência”. Partindo dessa premissa, o que instigou o nosso aluno a aprender foi o desequilíbrio do saber, o qual gerou dúvidas e a partir daí foram em busca de soluções, despertando nos nossos discentes a inteligência para se chegar ao aprendizado.  A conclusão fantástica desse processo foi a seguinte: não só os educandos aprenderam, mas eu também, como mediadora do processo ensino-aprendizagem.













MEMÓRIAS LITERÁRIAS


TEXTO CLASSIFICADO MEDALHA DE BRONZE NAS OLIMPÍADAS DE LÍNGUA PORTUGUESA EM 2019
Memórias Literárias
Janelas da minha infância
Início contando a história da minha vida, como se eu estivesse abrindo as janelas da minha infância. Foi um período muito difícil! Pois comecei a trabalhar no roçado, ajudando meu pai desde os meus seis anos de idade. Nessa época, não tinha tempo para brincar, a não ser nos dias de domingo ou nas boquinhas de noite (ao anoitecer).
Só comecei a estudar com oito anos de idade nessa mesma comunidade. Aqui à escola só tinha de primeiro ao quinto ano e era um só professor, tínhamos uma sala multisseriada. A escola não oferecia merenda e muitas crianças para estudar tinham que se deslocar até a mesma a pé. Diferente de hoje que os alunos têm carros para o deslocamento das comunidades até as instituições escolares.
A Fazenda Totoró, na minha infância era subdesenvolvida, pois não tínhamos energia elétrica e nem água encanada. A luz era lampião a gás e os banhos que tomávamos em nossa casas eram de cuia, (recipiente redondo e oco, fruto da cuieira ou coité) dificultando ainda mais à vida dos moradores da localidade.
Algumas das lembranças mais marcantes dessa época que aconteceram nesse lugar e que guardo em minha mente, foi até os dias de hoje foi uma grande chuva que deu no ano de 1974, enchendo o nosso açude que o mesmo chegou a uma grande sangria jamais vista neste local, chegando a altura de um metro e setenta e cinco. Esse ocorrido, logo causou muito medo aos moradores, pois todos ficaram com receio do reservatório não suportar tanta água! Porém, depois todos foram festejar tomando banho em sua sangria. Outra coisa que aconteceu de muito importante nessa comunidade foi nos anos 1980, a chegada da energia elétrica. Lembro-me como se fosse hoje! Brinquei até ás quatro horas da manhã com meus amigos que moravam perto. Nesse dia ninguém teve sono. Foi um momento memorável!
Como já falei, quando criança, quase não tínhamos tempo para brincar, vivíamos mais para trabalhar. Mas se bem me lembro quando tirávamos um tempinho para nossos entretenimentos é que só brincávamos de duas coisas que era de roladeira e andar de bicicleta. Para mim e meus amigos eram os melhores divertimentos!
Ainda, abrindo as janelas da minha infância que são minhas memórias, me vem uma outra lembrança muito marcante na minha vida de menino. Foi no dia em que eu soube que íamos à praia. De tão ansioso, fiquei dois dias sem dormir, só pensando na ideia de ir aquele lugar tão sonhado por mim! Quando cheguei lá, meus olhos não cabiam de felicidades! Sim, os meus olhos mesmos! Pois eles observavam aquela imensidão de água que não cabiam dentro dos mesmos! Fiquei encantado com tantas belezas! Foi realmente uma viagem inesquecível!
Em outra das minhas janelas, me traz saudosismo e vem a memória um dos cheiros que atribuo a minha vida de criança! É o cheiro da canjica no fogo e também o cheiro da galinha que minha mãe torrava na panela de barro! Só em lembrar chega a saborear com a mesma intensidade da minha infância. E outra coisa que me traz recordações e a traduzo como o gosto de saudade dessa época, é o cuscuz, feito com o milho de molho, a massa moída no moinho. O sabor e o cheiro desse delicioso alimento não tem como não ter saudade! Pois já não se faz mais cuscuz como antigamente! Hoje, compramos a massa pronta, o sabor e o aroma são muito diferentes!
Outro momento da minha infância que tenho saudades é da liberdade que tínhamos de ir e vir, pois naquela época quase não existia violência! A gente passava por muitas privações, mas podíamos andar sem muitas preocupações. Se eu pudesse, voltaria ao passado para resgatar e trazer para as crianças e juventude de hoje provar do sabor da liberdade. Esse hoje seria o meu maior desejo! Mas infelizmente, é apenas sonho.
Outra janelinha hoje, que eclode em mim são as lembranças das coisas que remetem a minha infância e ainda me restaram fisicamente.  Guardo-as para amenizar essa saudade! São as fotos em preto e branco e alguns documentos daquela época, onde preservo um pouco dessa minha história tão linda! Guardo tudo isso em uma caixinha em formato de coração. São coisas tão preciosas, elas têm um valor sentimental muito grande para mim! Por isso, zelo muito bem de todo esse afeto que de forma tão singular construiu a minha história de vida!!
(Texto baseado na entrevista realizada com o senhor, Hélio Tomaz de Araújo, 53 anos)


Olimpíadas de L. Portuguesa-Crônica


Crônica selecionada na escola
Escola Municipal Cipriano Lopes Galvão
Aluno: Willis Luiz Dantas de Medeiros – Data de Nascimento:16/05/2004, idade: 15 anos
Série: 9º ano
Data: 13/08/2019
Crônica

Belezas e encantos da Comunidade Totoró
 
Parei diante deste magnífico açude para apreciá-lo, uma das mais belas obras desta localidade que têm muitas histórias para contar. Ele encanta todos os seus visitantes com sua beleza e muitos mistérios! Nesse momento, começo a pensar nas histórias que o povo contava desse lugar. Lendas deslumbrantes como a de uma criança que ao nascer foi jogada por sua mãe dentro do açude e por ser pagã, virou uma gigante serpente. Moradores daqui contam que quando o reservatório está cheio, ela fica dentro dele, muitos pescadores dizem já ter presenciado a cobra dentro do mesmo. Eles dizem que ela sai destruindo canoas e tentando afogar pescadores. Muitas pessoas que moram perto do reservatório já viram ou contam que alguém já viu esse fenômeno em suas águas. E dizem que pescadores que voltavam vivos ficavam com medo e não retornavam mais a pescar.
Há outra lenda muito tentadora que o povo desta comunidade conta. A lenda é a seguinte: dizem que existe uma botija escondida dentro de uma caverna, lá no cume do Pico do Totoró. Essa botija é de um fazendeiro muito rico da região, chamado Félix Gomes, que antes de morrer escondeu todo o seu dinheiro e ouro dentro de um baú e com sua ganância que era grande, resolveu subir o pico e lá na caverna matou seus escravos para não contarem a ninguém do seu tesouro e os jogou dentro de um buraco junto com seu baú na caverna, e os mesmos viraram cobras e dizem que guardam até hoje esse tesouro.
As margens deste açude está o mais alto ponto culminante do nosso município, que é o Pico do Totoró! Além de ser uma obra prima da natureza e ter seus encantos foi escolhido junto as geoformas que ficam dentro do nosso açude. Elas lembram um caju e a outra, o formato de um navio em forma de pedra esculpidas pela natureza, fazendo parte do Projeto Geoparque Seridó e a partir de então, toda essa beleza está inserida no Geoturismo. Todos esses pontos históricos são considerados uns dos principais cartões postais de toda a região.
Este açude de águas verdejantes e sua lenda, fascina a todos os turistas que passam por aqui e param para contemplar um dos mais visitados pontos turísticos do nosso município. Ele também é o maior reservatório de água da Comunidade Totoró que serve de irrigações para os agricultores que fazem plantações de hortaliças nas suas margens, das quais muitos tiram sua fonte de renda. Essas mesmas águas também são usados para alimentar os animais.
Não tem quem não se encante, observando esse santuário ecológico, onde os animais adaptados a esse ecossistema, se banham e matam sua cede em suas águas doces. Diante desse presente da natureza, dá para ouvir o cantarolar dos pássaros dessa região, como o canto das rolinhas, bem -te -vis e até os galos-de-campina que embelezam os nossos ouvidos com suas belas melodias.Com suas alegrias, eles brincam ao redor do açude como se estivessem bailando no ar, agradecendo a Deus por tudo que ali existe.
São esses recursos naturais que trazem à comunidade, as belezas e encantos dessa simbiose que a natureza projetou nesse lugar. Tudo isso, é um encanto para os nosso olhos e de todos do Seridó.